A decisão de Renan Calheiros e nossa condição atual

08 Dezembro 2016 14:25:40


Imagine você, cidadão como eu, a seguinte situação: chega um Oficial de Justiça em sua casa com uma decisão judicial e você simplesmente não recebe 
o Oficial e nem cumpre a decisão. O que nos aconteceria? Com o Senador Renan Calheiros não acontece NADA! Isso mesmo, nada. Vivemos um momento perigoso! Muito perigoso. Pior que a degradação dos limites que a ética exige no campo privado, são as consequências dessa degradação no campo público e na crise das Instituições. Sem Instituições sólidas e que garantam o mínimo de segurança e ordenamento social, beiramos o caos, o vale tudo, a irracionalidade, a banalização dos limites e do sentimento de justiça. O modo de vida capitalista assumido e defendido por todos nós, leva ao individualismo e o vale tudo por dinheiro, lucro, propina e, portanto, condições de poder para acessar estes meios.

Infelizmente, isto sempre acompanhou o Estado, a política. Até agora, não vimos acontecer a distinção entre a administração da pólis e o seu desvencilhamento do modo de vida capitalista e da corrida por dinheiro e mais dinheiro. Quando, tanto Lula quanto Dilma anunciavam que o combate a corrupção tinha que “cortar na própria carne se fosse preciso”, sabiam do que falavam, pois seus governos deram autonomia a Polícia Federal e voltaram-se para o combate e investigação. Só assim a Lava Jato foi possível, tanto que o procurador Deltan Dallagnol admitiu em vídeo na semana passada que o combate a corrupção era mais efetivo quando Dilma estava no poder. A partir de então, o que vemos se instalar no Brasil beira o mais perigoso momento que uma nação pode viver, quando o Legislativo legisla para defender seus próprios interesses, o Executivo mira o poder e o controle destes mesmo interesses e o Judiciário corrobora implantando e defendendo 
uma “justiça” seletiva. Ou, o perigo de se colocar a justiça entre aspas, o que vale para um não vale para outro.

O filósofo Immanuel Kant já nos disse em um breve texto em 1784 que, o problema de termos um Senhor acima de nós, cuja função é controlar nossas 
paixões, liberdades e excessos em nome da ordem coletiva, é que este Senhor também tem paixões. E é exatamente isso que vivenciamos hoje. Quem vigia os 
vigilantes? Tudo isto coroado pela guerra da informação, a pior de todas. Aquela em que grupos detém o monopólio para divulgar aquilo que convém ao 
seu atrelamento de interesses junto ao Estado: concessões e lucro.

Junte-se a isto a evidência cada vez mais explícita de nossa condição humana em que cada vez mais vemos exacerbado, divulgado, curtido e compartilhado a 
divisão de quem pensa EGO- no eu, no individualismo e no egoísmo, e quem pensa ALTER- no outro, na compaixão, na ajuda mútua e na solidariedade e no 
altruísmo. Esta última condição cada vez mais sendo chamada de comunista, esquerdista e combatida por quem quer ver o outro dilacerado e a dignidade 
humana jogada as traças, prevalecendo o vale tudo, a desigualdade, quando não, sangue e barbárie.

Falar de ética, virtudes, amor, paciência e compaixão tornou-se motivo para ser perseguido e rechaçado. Falar de ajudar, doar um pouco de seu tempo para 
o outro, fazer diferente, olhar o que está por detrás da dor e da revolta do outro, passou a ser motivo para ser taxado de “diferentão”, “coisa de quem 
quer aparecer”, e somos sufocados por quem não quer abrir mão de pisar, levar vantagem, julgar sem conhecimento de causa, ser intolerante e 
preconceituoso.

É preciso ser otimista, pensar que para cada intolerante e frio egoísta que surge, levanta-se do lado alguém que se compadece com a dor do outro, que se 
põe a disposição, que estende a mão e um sorriso, na mais bela demonstração daquilo que Aristóteles sabia quando dizia que somos animais políticos, no 
sentido de que não vivemos só, sem a relação com o outro e com a Pólis- cidade- de onde vem a palavra política. Assim como não vivemos sem a 
amizade, no melhor sentido de Sócrates, como “o cimento que consolida uma cidade justa”. Amizade não apenas como um sentimento privado, mas um estado 
sadio de concórdia, numa cidade que é dilacerada por rivalidades e lutas de interesses.

E como nos encontramos e nos reconhecemos humanos? Quando olhamos para o outro, aqui Sócrates novamente: "A alma, se ela quer reconhecer-se, não é 
para uma outra alma que ela deve olhar?"


Edina Maria Burdzinski

Professora de Sociologia

Mestranda do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas 
da Universidade Federal da Fronteira Sul – Erechim, RS.

edina.mariacs@hotmail.com


att e a disposição

Edina Maria Burdzinski
Socióloga e professora de Sociologia
Mestranda do Programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas
Universidade Federal da Fronteira Sul - Erechim. RS.

"Somente duas coisas tenho certeza: o céu estrelado acima de mim
e a lei moral dentro de mim" Immanuel Kant (1724-1804) 

 

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