A política entre a utopia e a realidade

03 Outubro 2014 07:39:12

Antes de abordarmos, suscintamente, a questão complexa da política faz-se mister
distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a política com P maiúsculo que é a
busca comum do bem comum. Dela todos os cidadãos participam. Existe ainda a política
com p minúsculo que consiste na política partidária, que como a palavra sugere, é
parte e não o todo. São os agrupamentos políticos com ideologia e projeto (é o que
mais nos falta no Brasil) que buscam o poder de estado para a partir dele e de seus
aparelhos governar o município,os estados e a federação.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política mais que qualquer outra
realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz
simultaneamente dementes e sapientes, sim-bólicos e dia-bólicos, numa palavra, nos
revela intrincadas de contradições. Por isso, por um lado, dizem os Papas a política
é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis como o
patrimonialismo e a corrupção. Rubem Alves deixou escrito: “a política comomissão é
atividade das mais nobres; como profissão é a mais vil”. Dai viver a política em
permanente crise.

A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente
representados pelos parlamentares, muitos deles vivendo de negociatas e de
aproveitamento dos bens públicos. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se,
segundo o ideario dos mestres Norberto Bobbio e Boaventura de Souza Santos, num
valor universal a ser vivido em todas as instâncias, da família, dos sindicatos até
no centro do poder do estado. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um
projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de
aperfeiçoamento. Infelizmente, esta é a tendência dominante, particularmente, no
quadro da pós-modernidade para a qual qualquer coisa vale (anything goes) ou só vale
o que está na moda. E está contaminando os jovens que se sentem desiudidos com a
política.

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonha e que não se orienta por
utopias, escolheu o caminhou de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia
não se alimenta a esperança. Sem esperança não há mais razões para viver e o
desfecho fatal é a auto-diluição. A utopia desempenha função insubstituível, pois
ela relativiza as realizações históricas concretas e mantém o processo sempre aberto
a novas incorporações. Numa palavra, a utopia nos fazer andar. Jamais alcançaremos
as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? São elas que espantam os
fantasmas da escuridão e nos enchem de reverência face à majestade de um céu
estrelado. Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe a função
pela qual existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e
realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações.
Isso vale tanto para a Política em P maiúsculo quanto a políitica em p minúsculo.
Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da
transparência e da retidão em todos os negócios onde estão envolvidos os poderes
públicos sempre contra a corrupção.

Quando confrontamos a política realmente existente e a utopia da política notamos
imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o
fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado que se regem por uma
feroz competição deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da
cooperação, fundamentais para uma convivência civilizada. Isso faz com que os
valores não materiais, ligados à justiça social, à gratuidade, ao cuidado, à
solidariedade, ao trato humano com as pessoas, à liberdade de expressão ocupam um
lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias, colocadas na banca do
mercado e exploradas por conhecidos populistas ou por todo um mercado de literatura
de auto-ajuda que mais ilude que ilumina.

Ora, destes valores altamente positivos vive fundamenalmente a política que se
entende como prática da ética social. Não é suficiente a denúncia das diferentes
corrupções, deixando-as impunes.Importa apresentar formas alternativas e legais de
realizar os projetos políticos. Facilmente caímos no moralismo como se somente com a
moral se resolvem todos os problemas.

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há
políticos que incorporam esta ética (ética na política). Mas ela não elaborou
suficientemente uma ética social e política que trabalha as instituições, os braços
longos do poder que devem ser transparentes e um serviço público (ética da
política). É nesse campo que ocorrem as perversões da política.
Especialmente grave é o financiamento privado das eleições que se traduz por troca
de favores e implica alta corrupção.

No Brasil com tradição patrimonialista, quer dizer, o político facilmente considera
seu o bem público e se apropia dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta
na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo
necessitado.

A desejada reforma política que deve ser feita sem tardança reintroduziria a ética
na política pois para Aristóteles, o fundador do discurso político, política e
ética eram ainda sinônimos.

Leonardo Boff, teólogo e autor da Teologia da Libertação 

3192718256.png
3729519686.jpg
Capturar.PNG

Copyright © 2011. Todos os direitos reservados | Jornal O Riossulense