Tempo de Consciência

05 Dezembro 2014 14:29:19

Fortaleza, Ceará, chego perto da meia da noite no Centro de Formação, Capacitação e Pesquisa Frei Humberto, ligado ao MST. Foi-me reservado um quarto com quatro beliches e oito camas. Não acendo a luz para que os companheiros que já estão dormindo não se acordem.

Um pequeno ventilador tenta amenizar o calor nordestino de novembro. Felizmente, nenhum dos companheiros de quarto ronca. O banheiro não tem espelho, para que meu eterno franciscanismo não se perca na vaidade. Nada de regalias, privilégios, mordomias para um Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República. Ou, talvez, oportunidade para dar-me conta de que este é um tempo de consciência.

É o Encontro Macro Nordeste da RECID (Rede de Educação Cidadã), com o tema: Sonhos, Lutas e Avanços da Educação popular no Nordeste – Trilhando os Caminhos do Projeto popular. Hora de fazer um balanço dos últimos quatro anos: um governo termina, outro governo começa. Analisar o presente, pensar o futuro. A RECID, como a gente diz, tem um pé no governo, outro pé na sociedade.

Os quase cinquenta educadores e educadoras populares estão radiantes. Estão com a alma lavada, ou como pinto no barro, criança na chuva. O clima é de alto astral. No final do segundo turno das eleições presidenciais, os movimentos sociais do semiárido brasileiro reuniram dezenas de milhares de pessoas em evento eleitoral. O povo saiu de suas casas, hoje com cisternas, viajou longe para Juazeiro da Bahia e Petrolina, PE, encheu a ponte que separa/une as duas cidades, para dizer que a vida está melhor, há mais dignidade, há futuro, há consciência de que está em construção uma sociedade mais justa e igual.

Mas sabem também, os movimentos sociais e os educadoras/es, que este é apenas o começo de uma grande caminhada.

Em agosto, no final do 5º Diálogo Brasil Sem Miséria, promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e Secretaria Geral da Presidência da República, que reúne convidados da sociedade e do governo, depois de apresentados os avanços e resultados do Programa e ouvidas por mais de hora as considerações dos movimentos sociais e representantes de instituições presentes, a ministra Teresa Campelo disse uma frase lapidar: “Chegou o tempo da consciência.”

Nos últimos anos, diminuíram a extrema pobreza e a desigualdade. Melhorou a vida do povo, que tem acesso a bens fundamentais, como geladeira, fogão, aparelho de televisão, casa. Os programas sociais e agrícolas beneficiam milhões. Há mais renda e emprego. Há mais acesso à escola e à Universidade. As cisternas estão sendo construídas no semiárido: na última grande seca nenhuma criança morreu por desnutrição na região, o que é um extraordinário avanço.

Isso não significa, porém, que todos os problemas estejam resolvidos, que os serviços públicos sejam todos de primeiro mundo. E não significa, necessária e automaticamente, cidadãos conscientes de seus direitos, capazes de viver mais e melhor em comunidade e trabalhar solidariamente. Às vezes, tornaram-se apenas e tão somente consumidores, que pensam apenas em si e no seu bem-estar pessoal, deixando de olhar para as necessidades do vizinho, do colega de trabalho, do membro de sua comunidade. Com mais individualismo e com o consumismo, mais violência e criminalidade.

Neste contexto, o X Encontro Nacional da Rede MOVA-Brasil (Movimento de Alfabetização), realizado em Porto Alegre no início de novembro, reafirmou a perspectiva libertadora, humanizadora, transformadora e dialógica da educação popular e da alfabetização de jovens e adultos, articulada com uma política nacional de educação popular.

E na Carta de Porto Alegre, o MOVA-Brasil reafirmou a concepção emancipatória, fortalecendo os princípios freireanos e a dimensão eco-político-cultural nos sistemas de educação: assegurar a formação pedagógica a partir dos princípios da educação popular, fazendo a relação teoria-prática, dialogando com os movimentos sociais populares; entender, conviver e respeitar a diversidade como práticas educativas com comunidades tradicionais, índios, quilombolas, ciganos, terreiros, pescadores, geracional, LGBT, pessoas com deficiência, privados de liberdade e trabalhadores/as do sexto; trazer a identidade local para dentro da formação, valorizando os saberes dos alfabetizadores e dos alfabetizandos para o processo formativo.

Chegou o tempo da consciência. As mobilizações sociais acontecidas nos último período, o Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e a Lei de Iniciativa Popular para a Reforma Política, o recado dado nas urnas apresentam a oportunidade do amadurecimento social, político, cultural da sociedade, da democracia e do povo brasileiro. Selvino Heck - Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
 

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